Uma história de covardia | Por Inocêncio Nóbrega

Perseguições a profissionais de imprensa continuarão a acontecer, cujos governos não têm cultura suficiente para convívio democrático e civilizado.

Por Admin 13/11/2017 - 18:07 hs
Foto: Divulgação
Uma história de covardia | Por Inocêncio Nóbrega
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Inocêncio Nóbrega
Jornalista
inocnf@gmail.com

Lembrando Gonçalves Ledo, o que melhor importa para uma boa imprensa no Brasil é “não deixar que o crime durma tranquilo; o nepotismo reparta os empregos da nação; a dilapidação absorva o patrimônio público; a justiça postergue a razão”.  Isso foi dito quando o deputado carioca apresentava ao Parlamento brasileiro, em junho de 1826, Projeto de Lei, por Crimes por Abuso de Liberdade de Imprensa. No calor das discussões, rebate Campos Vergueiro: “A liberdade de pensar só pode ser limitada pelas leis divinas e nunca pelas humanas”.  Dentro desse tema, comentou um jornalista: “A liberdade de expressão é intocável. Bobagem. Falamos e escrevemos dependentes da aprovação de quem nos emprega e nos paga.” Acrescenta esteja condicionada ao bom senso, à educação e nossa civilidade.

O repórter alagoano Davi Soares, colaborador do portal Diário do Poder, segundo ele sofreu uma série de xingamentos, por parte do ministro de Turismo e coestadano Marx Beltrão, por haver noticiado, em link, no grupo denominado De Fatos, que um de seus assessores só foi demitido após sua prisão, pela Polícia Federal. Despreparado para a alta função ministerial, normal neste governo antipovo, acusa o autor da matéria de mau caráter e de vigarista, prometendo processá-lo. A reação veio do Sindicato da categoria e do próprio atingido, entendendo tratar-se de natureza truculenta, cuja prática remonta de “tristes histórias de covardia contra o povo de Alagoas”.

O assunto pode descambar para a Justiça. Num caso semelhante, envolvendo o jornalista Luís Nassif, o então presidente do STF, ministro Marco Aurélio, assim se expressou: “É dever da imprensa livre criticar. Essas suscetibilidades, com possíveis adjetivações, devem ser mitigadas”. Conclui afirmando que  “qualquer postura, que inviabilize o exercício da liberdade jornalística, não pode ser agasalhada pela estrutura do Judiciário, sob pena de retrocesso”.

Esperemos o que acontecerá nesse lamentável episódio. Acreditamos que as palavras de um dos decanos do Supremo sirvam de jurisprudência. É bom, todavia, acautelar-se, diante das incertezas jurídicas do momento. Perseguições a profissionais de imprensa continuarão a acontecer, cujos governos não têm cultura suficiente para convívio democrático e civilizado. Um pouco antes, em 1821, 21 de agosto, D. Pedro assinava ato liberando as produções editoriais de censuras prévias. Mas, foi justamente nesse período que o matutino baiano, Diário Constitucional, orientado unicamente por brasileiros, teve de suspender sua circulação. Voltou às ruas quando o Grito de Independência estava bem próximo.

Ao odiento ministro dedicamos esta divisa, retirada dos Lusíadas, escolhida por esse jornal: “A verdade que eu canto, nua e pura,/ Vence toda grandiloca escritura”.