Querida Raquel | Por Inocêncio Nóbrega

A nova Procuradora Geral, Raquel Dodge, nomeada por uma caneta criminosa, a despeito de sua capacidade, não deverá se sentir diminuída tratá-la de “querida Raquel”.

Por Admin 19/09/2017 - 12:21 hs
Foto: Procuradora Geral da Republica Raquel Dodge, em foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil
Querida Raquel | Por Inocêncio Nóbrega
Procuradora Geral da Republica Raquel Dodge, em foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil

DivulgaçãoInocêncio Nóbrega
Jornalista
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Numa pequena cidade do interior paraibano cursei o primário, na época o 2º degrau de graduação no caminho curricular. Sem internet, buscavam-se os livros e seus melhores autores.  Presos ficávamos a mestres que davam tudo de si para, superando naturais deficiências, a fim de ministrarem aulas da melhor qualidade possível. No relacionado ao ensino de português - lembro-me muito bem - no capítulo destinado aos Pronomes de Tratamento repassavam-nos principais regras quanto ao seu emprego, informal ou protocolar. Citavam exemplos os mais diversos. “Doutor”, para os portadores de cursos superiores. Mas, este só pegou para médico, engenheiro e advogado. Os demais, ficavam por conta da cordialidade. O “senhor” é genérico, porém cheira tempos de feudalismo.

Expunham-nos as condições de uso de V. Sa., V. Exa., etc., e outros afins às autoridades, com destaque para Presidente da República, a única a se referir por extenso e cerimonialmente por “Vossa Excelência”; no mais poderiam ser abreviadamente. Não condiz com a verdade, deriva de excelente, o qual significa   extremamente bom. Contudo, os tempos evoluíram e com eles a semântica desse tratamento. De bom senso, ao esclarecido cidadão brasileiro, que prima pela sua honorabilidade, certamente se sente desconfortado ao aceitar tal imposição gramatical, perante agentes públicos, acusados de desvio de credibilidade, por não honrarem os compromissos diante da sociedade e da Nação.

Parece vício de linguagem quando Lula preferiu tratar de “querida” a Procuradora da República, que o interrogava. Foi admoestado a mudar de termo, em obediência a etiquetas vocabulares cerimoniosas do gênero. Fechar questão em torno dessa exigência é infantilidade e foge da realidade moral vigente. Quem, de satisfeito, considerar V. Exa. Romero Jucá (o Suruba), e a alguns outros senadores e deputados; a ministros e ao próprio Michel Temer, considerados criminosos da República? Bem assim membros do Judiciário e Ministério Público do País.

O presidente Lula sinalizou uma revolução gramatical sem precedentes. Já conta com o aval do Senador Roberto Requião. No seu último discurso, o parlamentar pronunciou várias vezes a expressão “queridos operadores da Lava-Jato”; já apresentou Projeto-de-lei, disciplinando as chamadas normas cultas e reverências no âmbito do serviço público. Diz na justificativa incabível num estado democrático, abolindo “Excelência” por completo.  A degradação moral do País nos leva atualizar essa postura de comportamento. A nova Procuradora Geral, Raquel Dodge, nomeada por uma caneta criminosa, a despeito de sua capacidade, não deverá se sentir diminuída tratá-la de “querida Raquel”.