Gentileza

Por Neiton de Paiva Neves 11/05/2017 - 18:11 hs
Foto DivulgacaoNeiton de Paiva Neves (*)
 
Um bom número de veículos circula com um plástico colado no vidro ou no para-choque traseiro impresso com a palavra “GENTILEZA”, iniciativa que parece ser uma proposta e uma súplica.
 
Há certa confusão quanto ao significado do que é ser gentil, que alguns acham frescura, outros pensam ser coisa de mulher, outros tantos sinal de fraqueza ou de adulação, no geral todos grosseiros e também mal educados, pois gentileza e educação não são sinônimas, embora geralmente andem juntas.
 
A gentileza facilita as relações sociais e as tornam mais agradáveis. É algo que ninguém é obrigado a fazer, mas faz para melhorar a relação com as pessoas, é um cuidado com o outro que vai além das normas formais de educação – define Maria Eunice Maciel, doutora em Antropologia e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
 
Vida acelerada, correria prá cá e prá lá, pressões de todos os lados, trabalhando doidamente, cercados de problemas de toda a natureza e procedência, preocupados com o futuro próprio e o da família, correndo atrás do pão de cada dia e de contas a pagar, sem tempo para mais nada, cansados, paciência curta, e ainda querem gentileza!
 
Não há nenhuma novidade nisso. Na realidade da vida, seja qual for, é que a gentileza tem importância e valor, como ingrediente capaz de suavizar a dureza e reacender os valores humanos anestesiados, esquecidos ou suplantados pelos imperativos da sobrevivência ou por opções infelizes.
Um texto cujo autor desconheço, é sempre lembrado quando se deseja realçar a força da gentileza. Segue transcrito:
 
“Samuel era um Rabino que, por volta de 1930, vivia numa aldeia polonesa. Gostava de dar longas caminhadas pelo campo e era conhecido pela sua gentileza, pela forma com que a todos tratava.
 
As relações entre cristãos e judeus não eram muito boas, naquela aldeia, mas, mesmo assim, toda a vez que o Rabino passava pelo Sr. Müller, um lavrador cristão, o cumprimentava com um sonoro “bom dia” !
 
Naturalmente que não havia resposta. O lavrador lhe voltava as costas, em silêncio. Mas, o Rabino não desistia. Todos os dias, nas manhãs de sol, passava e cumprimentava o Sr. Müller.
 
Finalmente, depois de muito tempo, o lavrador decidiu corresponder ao cumprimento. Primeiro, com um leve toque no chapéu. Depois, acrescentou um sorriso. Mais tarde, gritava de volta: “Muito bom dia Rabino!”.
 
Muitos anos se passaram. Chegaram os nazistas e o Rabino e toda sua família foram feitos prisioneiros e levados a um campo de concentração.
 
Enquanto caminhavam ao ritmo da fila de entrada, o Rabino percebeu que lá na frente o comandante do campo, com seu bastão, indicava onde o prisioneiro deveria ir: para a esquerda ou para a direita.
 
A esquerda queria dizer morte imediata. A direita garantia algum tempo de sobrevivência.
 
O coração começou a palpitar. A fila avançava e ele pensava: esquerda ou direita? Morrerei ou viverei? E minha família?
 
Quando estava apenas a uma pessoa de distância do oficial, afastou o medo e olhou com curiosidade para o rosto do comandante. Naquele momento, o homem se voltou e os olhos de ambos se encontraram.
 
O Rabino se aproximou. Era a sua vez. Olhou fixamente para os olhos que o fitavam e disse baixinho: “bom dia, Sr. Müeller”.
 
Os olhos do comandante tremeram por um segundo. A seguir, respondeu: “bom dia Rabino”.
 
Estendeu o bastão para frente, apontou a direita e gritou: “passe”.
 
E o Rabino passou para direita, para a vida. A guerra acabou e logo em seguida e foi libertado”.
 
Nessa história, a recompensa pela gentileza foi a vida. Na vida, quem sabe ser gentil já está premiado.
 
(*) Neiton de Paiva Neves é advogado e Diretor da Faculdade de Direito da Universidade Presidente Antônio Carlos - Unipac Araguari.

Artigo publicado originalmente em dezembro de 2009, no blog www.portaldearaguari.blogspot.com.br