Estados de polícia

Por Inocêncio Nóbrega 11/05/2017 - 15:43 hs

Foto DivulgaçãoEscola das Américas, “School of the Americas”, nome original, instituição criada em 1946 para formação didática contra insurgências pró-comunistas, controlada pelo Pentágono, deixou para os países latino-americanos, especialmente do Cone Sul, onde medraram as últimas ditaduras, verdadeiro legado de “Estados de Polícia”.  Inicialmente situada no Panamá, hoje se encontra em território estadunidense. Nessa passagem de tempo incluíram a tortura na sua grade curricular, graduando ditadores e oficiais das forças armadas do Continente. Alguns países já deixaram de enviar militares para se reciclarem nesse instituto de ensinamentos e treinamentos desumanos, havendo uma campanha no governo FHC a fim de o Brasil  siga esse exemplo. Não sei do desfecho, apenas que a prática continua viva, conforme a temos assistido, entre polícias militares de vários estados.

Paraná, governado por Carlos Alberto Richa, em abril de 2015 mandou sua turma de choque policial contra professores estaduais em greve, provocando ferimentos em 213 deles, num verdadeiro massacre, só lembrando os idos da ditadura. Colega seu, de S. Paulo, aliás do mesmo partido, tem desafiado, policialescamente, quaisquer manifestações democráticas. Rio de Janeiro vem seguindo essa regra. Agora, o de Goiás entrou nessa escala de repressão às lideranças das categorias sociais e de cor menos favorecidas. Já somam seis o número de presos políticos, nunca existente desde a redemocratização.

Certo que em 1914 o jornal “Imparcial”, do Pará, foi empastelado, à ordem da então presidência desse Estado, por reivindicar melhoria salarial e jornada de oito horas de trabalho; que o estudante de direito, Demócrito Souza Filho, foi morto no centro do Recife, em março de 1945, por encabeçar movimento estudantil opondo-se ao chamado Estado Novo, de Vargas. A vez chegou para o universitário goiano Mateus Ferreira da Silva, impiedosamente espancado na praça Bandeirantes de Goiânia,  por um policial,  pela sua participação ao movimento grevista do último 28 de abril. Se assim procedeu, naturalmente comunga com a literatura de horror absorvida por militares superiores, provavelmente alunos da “Escola das Américas”, ligada à CIA, transmitida a novas gerações, que assim agem em nome daqueles.  A vida do rapaz corre perigo, um mártir vivo, sem dúvida.  

É mais uma denúncia que deve chegar ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, perante o qual o Brasil já é réu, justamente acontecido neste governo de retrocesso nacional. Em se tratando do Estado de S. Paulo, tal  veiculação caberia ao Conectas e a um Núcleo Especializado, da Defensoria Pública estadual. 

(*) Inocêncio Nóbrega é jornalista e historiador.